jueves, diciembre 29, 2022

Simone Brantes / Tres poemas



Si no viajaste en las vacaciones
y te quedaste escribiendo en casa
después sentirás que es como si hubieses viajado
si escribiste y te gustó escribir
aunque te haya pesado
la casa vacía (pues todos a diferencia tuya
viajaron), el calor, el barullo de la calle,
del bar donde todos los caminos del barrio
confluyen, el miedo a no dar abasto con la tarea
Si escribiste, si te
gustó escribir, si temiste
si gozaste, si el punto final
llegó sólo cuando era necesario
ahora mirás y sentís
que hiciste el viaje, el texto es aquel paisaje
distante que atravesaste
sin poder siquiera sacar un retrato

                   para Flávia Trocoli y Alberto Pucheu



Brote

Yo estaba en un brote. Y el brote se manifestaba así: la lengua 
había crecido dentro de la boca y no tenía control sobre ella. 
Tanto se podía doblar hacia la garganta causando la horrorosa 
sensación de asfixia cuanto avanzar y salir por la boca. El hecho 
es que no conseguía usarla para expresarme y eso repercutía 
no sólo en las palabras, también en los gestos (como si fuesen 
concebidos y ejecutados dentro de la boca) atropellados, 
emperrados. La sensación era horrible y no entendí como no 
me desperté gritando, como sólo fui recordando el sueño a lo 
largo de la mañana. Ya estaba en camino al mercado cuando, 
acompañada de algunos fragmentos de ese sueño, me crucé 
con una moto vieja y desplumada que ostentaba en el motor 
un adhesivo brillante con el siguiente dicho: “Dé vacaciones 
a su lengua. Use la cabeza”. 


*

Me paré debajo de un almendro 
de hojas recién nacidas
era increíble que estuviesen allí
tan frágiles y ya tan capaces
de soportar el golpe del viento y de la luz
de aquella mañana en Copacabana
Me quedé parada mirando
pasmada hacia arriba
cuando una mendiga
se irguió de un banco
oculto en alguna 
sombra gritando
muy irritada

Después la loca soy yo
Después yo soy la loca

Simone Brantes (Nova Friburgo, Brasil, 1963), Tejer y destejer, 7 poetas contemporáneas del Brasil *, selección y traducción de Agustina Roca, Bajo la Luna, Buenos Aires, 2020



* La antología la integran poemas de Ana Martins Marques, Annita Costa Malufe, Claudia Roquette-Pinto, Izabela Leal, Josely Vianna Baptista, Lu Menezes y Simone Brantes, algunos de ellos pubicados en este blog [N. del Ad.]


Se você não viajou nas férias
mas ficou escrevendo em casa
depois você vai ver é como se tivesse viajado
se você escreveu e gostou de escrever
mesmo que sobre você tenha pesado
a casa vazia (pois todos ao contrário de você
viajaram), o calor, o barulho da rua,
do bar aonde todos os caminhos do bairro
vêm dar, o medo de não dar conta do recado
Se você escreveu, se você
gostou de escrever, se você temeu
se você gozou, se o ponto final
veio só quando era necessário
você agora olha e sente
que fez a viagem, o texto é aquela paisagem
distante que você atravessou
sem poder sequer tirar um retrato

                        para Flávia Trocoli y Alberto Pucheu


Surto

Eu estava em surto. E o surto se manifestava assim: dentro 
da boca a língua havia crescido e eu não tinha mais controle 
sobre ela. Tanto podia recuar na direção da garganta causando 
a horrorosa sensação de sufocamento quanto podia avançar 
e sair da boca. O fato é que não conseguia usá-la para me 
expressar e isso tornava não apenas as palavras, mas também 
os gestos (como se fossem concebidos e executados dentro 
da boca) engrolados, perros. A sensação era horrível e não 
entendi como não acordei gritando, como só ao longo da 
manhã fui me lembrando do sonho. Já estava a caminho do 
mercado quando, acompanhada de alguns fragmentos desse 
sonho, passei por uma moto velha e depenada que ostentava 
no motor um adesivo brilhante com o seguinte dizer: “Dê 
férias à sua língua. Use a cabeça”.

*

Parei debaixo de uma amendoeira
de folhas recém-nascidas
era incrível que estivessem ali
tão frágeis e já tão capazes
de suportar o tranco do vento e da luz
daquela manhã de Copacabana
Fiquei parada olhando
pasma para o alto
quando então uma mendiga
se ergueu de um banco
oculto em alguma 
sombra gritando 
muito revoltada

Depois a louca sou eu
Depois eu sou a louca

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